Jamais negam percorrer o caminho;Desbravam sem receios; na
Espera de refrigério ao longo, e
De massagens com ungüento
Daqueles que a boa novo alcançou.
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Vejo o tempo caminhando; às vezes não o percebo os fatos indicam. Mês passado; partilhava com meu pai alguns conflitos, hoje quando chego a seu quarto está tudo diferente; ele já foi dormir. Com ele dormem tantos outros que cruzaram minha vida; contínuo amando-os embora só os veja em fotografias. A mulher enérgica que me lia histórias; dormia ao céu aberto esperando uma estrela cadente hoje tem dificuldade em enxergar assim digo-lhe se alguma estrela cair.
Todas as manhãs e no cair da tarde; surge no jardim uma passarada; que cantam melodias das estações. As flores com seus estigmas abertos os esperam para polinização, observo atraída ao espetáculo. Um deles desviava-se a mim criando uma coreografia; como se fizesse parte do espetáculo. Aplaudia-os maravilhada. As estações alternavam; as flores transitavam; o colorido variava; e eles a cantarem. Numa manhã de sol contemplando o jardim caíra em minha cabeça um raminho de oliveira. O pássaro sozinho flutuando ao vento; porta-me uma melodia. Deslumbrara, busquei tocá-lo; acariciá-lo; ele esvoaçava; perto o suficiente para ouvi-lo. Sentei. Deixei-o livre, voando e cantando no jardim; na certeza de que sempre o assistirei de perto. 
As palavras lembram-me que sou humano,
Feito o corpo, com minúsculas células,
Tão importante quanto minha pele.
E minha mente
Minhas mãos e meus olhos.
Minha pele sente calor, frio, paixão,
E amor.
Minhas mãos passam energia e calor
Da minha boca saem às palavras
Leves e suaves; fáceis de ouvir
O amor é assim sem máscara,
Sem meias palavras; sem explicação;
Amante de gente; querendo gente;
Sendo gente.
As palavras trazem-me a razão
Ora agressiva, persuasiva,
Mentirosa
O amor intercepta tais palavras.
Palavras de Miguel
Passado escravoConta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa

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