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segunda-feira, março 04, 2019

Soneto XXIV: Pablo Neruda

Assim anda o meu amor,  sem eu.
ANTES de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheia.

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.

domingo, maio 24, 2009

Nos dois

Não consigo escrever de nos dois
As palavras estão fugindo de vir
Estão assustadas em exprimir
O significado de nos dois

Busco as palavras dos lençóis
Sussurradas buscando traduzir
O prazer de possuir
O conjunto que forma nos dois

Palavras tomadas aos anzóis
Do silêncio dos nossos lençóis
Passeios da nossa união

Os adjetivos teimam em partir
As formas buscam distinguir
Os verbos da nossa união.

.

sábado, abril 04, 2009

Os versos

Os versos nascem dos poetas,
Na plenitude do silêncio.
Pronuncias dita do silêncio,
Transcrevendo o ser Poetas.

Retoma versos das gavetas,
Esquecidos por negócio.
Folhas amareladas do silêncio;
Da corrida as moedas. Quietas.

Abre a gaveta trancada;
Observa a marca deixada,
Completa os versos lentamente.

Busca palavrinhas de perto,
Nascendo os versos liberto;
Das folhas rasgadas na mente.
.

domingo, março 29, 2009

Na mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental